Projeto: Anacronismos

Projeto Anacronismos

 

Estar diante do tempo, aliás atravessá-lo, se tornou a base do processo da construção das imagens deste ensaio. Meus pais que atuavam na militância política e partidária desde 1963 perante o meu nascimento em 1970 e das ameaças contra a vida que advinham do regime militar, que estava a frente do nosso país, tiveram que deixá-lo rumo a Albânia (país comunista na época), a fim de trabalhar na Rádio Tirana transmitindo notícias do Brasil e do mundo para a América Latina por determinação do partido.

Em exílio vivemos seis anos até retornarmos ainda clandestinos ao Brasil, trazendo entre muitas coisas, dois álbuns de retratos de família que são disparadores das inquietações que permeiam este ensaio. Todas as fotografias e negativos que tínhamos como registro desses anos foram queimados e assim propositalmente permaneceram só as fotografias com enquadramentos fechados a fim de não revelar a sua localização. Tinham como objetivo ambíguo fazer memória para nós que sabíamos a história por de trás de cada fotografia e conduzir quem não conhecia a acreditar em uma história ficcional construída por meus pais para mim em cada imagem reforçando uma narrativa construída para não revelar onde estivemos estes anos. Uma história ficcional que contava que vivemos em Paris e Roma e assim nosso paradeiro estava em segredo pois ainda não havia chegado a democratização e revelar nossa história poderia ter consequências fatais.

Buscando retornar no tempo e fluidamente entrelaçar as imagens mentais e as memórias através das fotografias se abriu o espaço para a narrativa ficcional contida neste trabalho. Após um processo de escolha das fotografias mais significativas, cada uma delas foi estudada em matéria de iluminação (direção, textura e qualidade) e possíveis localizações. Em posse destes dados para cada foto foi executado um autorretrato com iluminação, performance e figurino diferenciados, condizentes com cada fotografia. Finalmente através de um trabalho de pós-produção digital cada autorretrato foi inserido de maneira sempre discreta em segundo plano, por vezes embaçada na fotografia, reforçando o conceito de que ao olharmos uma fotografia nos remetemos ao tempo dela.

Essa narrativa foi construída como se eu pessoalmente estivesse nesta imagem, olhando para tudo que estava dentro do enquadramento, mas principalmente como um viajante do tempo que através da fotografia é deslocado fisicamente para aquele tempo e consegue ver tudo que estava fora do enquadramento, e, como nas ficções, acaba sendo registrado na imagem. Somam-se a estas imagens fotografias que foram tiradas em novembro de 2018, elaboradas da seguinte forma; retornei ao lugar de cada fotografia e lá deixei-me aberto as emoções, sentidos e memórias e assim busquei fotografar e através dessas imagens restituir a memória e criar uma narrativa mas próxima do que tenho em minhas lembranças. Abre-se assim uma possível estratégia para enfrentar desafios estéticos, conceituais e políticos ao ouvir o que as imagens pensam e nos dizem proporcionando uma configuração esperançosa de mudança para esses tempos sombrios, pois é preservando e trabalhando a memória do passado que podemos enfrentar o presente.